domingo, 25 de maio de 2014

Alegria, alegria!



No último dia 21/05 acordei-me com uma surpresa: estava em notícia de jornal. Fazia parte da boa nova artística que acomete as escolas no incentivo a leitura e a reportagem no jornal "A hora" de Itapema, mostrava um dos nossos momentos lindos de contação de histórias. “Nosso momento” sim, pois a responsável por fazer isso acontecer em jornal da cidade foi a dona Desirée, uma das melhores bibliotecárias que esse município teve (com formação em Artes, entende e valoriza a educação humanística por este viés, precisa de mais?). Confira algumas fotos o periódico:

Foto: Detalhe da manchete no jornal (contracapa).

Abaixo transcrevo a reportagem:



“O Monteiro Lobato disse: “Um país se faz com homens e livros”. Já se sabia há muito tempo que a leitura influência a formação de qualquer pessoa, seja jovem ou adulta. E se a leitura virasse um hábito desde pequenino? Alguns estudos comprovam que uma criança que lê tem chances de se dar melhor na vida. É com esse intuito, que a biblioteca da escola Educar vira um mundo do Faz de conta! Lá rola muita leitura e contação de história.
Estes aí de cima da foto são os educadores Bruno Lazzfar e Profª Desirée Burlamaqui Vieira. Eles estão contando a história do livro Chapeuzinhos Coloridos, de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta. Será que as crianças gostaram?
Que tal ler uma historinha para seu filho hoje?”


Sou muito grato à escola pelo espaço ofertado para a formação estética e, principalmente, sou grato por ter amigas e parceiras de trabalho tão queridas! Já pensou? Professor de Português que ama a literatura mais uma bibliotecária deste quilate? Como diria Dona Ivone: “Dá sopa!”


Com carinho, prof. Bruno.
 


sexta-feira, 9 de maio de 2014

Em que o esforço de ver era o de exteriorizar.



1. Em que reinventamos nosso dia
“Miro e vejo”: o percurso que viemos realizando quando nos debruçamos na leitura dessas narrativas literárias é o da nossa própria história humana, entre perdas e ganhos. Sentimentos que nos dignificam e sobressaltam-nos para pulsões positivas, como também para o oposto. Em consequência, tocar em tais narrativas é de certa forma penetrar nos mais insondáveis conflitos que nos fazem adentrar angústias ou medo, enfim naquilo que de fato representa a nossa condição de desterro. Contudo, em deflexão, nos resgatamos no “Felizes para sempre” e no reencontro de novos rumos: caminhamos para o amor, felicidade, partilha.
Esta semana, nos deleitamos com “Romeu e Julieta” de Ruth Rocha. Obra que nos mostra – num primeiro momento – um reino colorido e cheio de flores, onde as coisas são separadas pelas cores. Tudo muito lindo para cheirar, tocar e ver, entretanto quem mora ali nem pode se conhecer: “mas também, dos seus canteiros, não arredavam as asas” completa a narrativa. Será que a cor das asas de Romeu e Julieta vai mesmo separar essas crianças borboletas? Foi o que descortinamos. 
Por fim, ainda cantamos a poesia "As borboletas" de Vinicius de Moraes, conhecidíssima e amada de todos.
Trechos da história :)

Ventinho é de explicar.

Sr. Coruja fez sucesso, pois as crianças adoravam imitar seus sons...

Me contaram que já fizeram um sol parecido. Tive deslumbre.
 Parece-me que toda narrativa nos convida para participar de sua realidade, que a letra está no texto e nas suas possibilidades pluralizadas pelo olhar de quem lê, e que também podemos relacionar com o conjunto de realidades que lhes dá origem. Neste sentido, adentrar no texto que frui, é seguir os diversos territórios propostos numa teia de significações, compostas a partir da palavra. Manoel de Barros desenha:

“A água passa por uma frase e por mim.
Macerações de sílabas, inflexões, elipses, refegos.
A boca desarruma os vocábulos na hora de falar
E os deixa em lanhos na beira da voz”.

[“O guardador de águas”, p. 31]
 


2. Em que aparece outra história
Outro momento literário que apreciamos foi em companhia de uma ovelha. Escrita pela alemã Jutta Bauer, “Selma” trata de um tema intenso: “O que é felicidade?”. Não há como resistir à filosofia de vida dessa ovelhinha. Ela leva uma vida aparentemente comum, contudo a grande surpresa que sentimos foi à satisfação que ela tem com as suas atividades: Selma vê beleza nas coisas mais simples e cotidianas. As crianças amaram e aos poucos iam expressando seus sentimentos de felicidade: “estar com quem se ama”, “estar com quem se ama... bicho ou gente”, “comer junto de alguém”, “ter dinheiro” e “pegar na mão do pai quando está na água do mar”, foram apenas algumas das pérolas que soltaram.
Detalhe da capa do livro.
Eu em um dos momentos da contação da história.
Eu em um dos momentos da contação de história.
Trecho do livro com suas ilustrações fofinhas...
"O que é felicidade?"
Olha a Selma aí gente!

3. Em que chego a uma conclusão
“A maturidade do homem consiste em haver encontrado a seriedade que tinha no jogo quando era criança” [Nietzsche, “Além do bem e do mal” p. 65].

Os jogos de palavras, as trocas de sentidos e as leituras compartilhadas durante o processo de leitura/escuta das histórias literárias catapultou-nos para a projeção, interiorização e identificação, pintando em nós desenhos de diversas naturezas. Por isso, (dar) o lugar da literatura é tão fértil para que se converse de dor e amor, pois aí se permite enraizar pelas instâncias mais secretas da consciência humana e quem sabe chegar a vias conciliadoras, nas quais se pode ver a infância como particularidade permanente.
 






Silêncio. Estamos lendo.












Com carinho, Professor Bruno.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

PO&CIA



Em comemoração ao aniversário de 52 anos de Itapema, alunos das escolas do município, do 6º ao 9º, produziram poemas homenageando a cidade. Dentro os selecionados vencedores, está meu querido aluno Jhohan Alberto!
UHUUULLL é isso aí! Sou grato por fazer parte de uma turma tão querida! E seguimos na resistência e luta pela arte em nosso cotidiano.
O professor que vos fala ataca de fã e posa na foto com o grande vencedor!
 Todas as poesias estão no Mirante do Encanto na exposição “Itapema, minha cidade, minha vida”.
Detalhe da exposição.


sábado, 26 de abril de 2014

De comer com os olhos



Olhar
O que eu vejo
me atravessa

como ao ar
a ave

o que eu vejo passa
através de mim
quase fica
atrás de mim

o que eu vejo
– a montanha por exemplo
banhada de sol –
me ocupa
e sou apenas
essa rude pedra iluminada
ou quase
se não fora
saber que a vejo.
[Ferreira Gullar, Barulhos, p. 29]

Que tal uma narrativa visual, onde toda a história é contada através de desenhos ou fotos sem nenhuma palavra? Em “O leão e o camundongo” de Jerry Pinkney, o impacto visual que as ilustrações provocam surpreendem! Os desenhos vivos, as situações de conflito, seu uso inteligente da página, seu desenho grandão, vão conduzindo a acontecência pela perspectiva do olhar: é o movimento, a andança, que faz o roteiro do visto, do percebido, do sentido, do que quer ser vivido, mexendo com a agudeza do leitor/olhador.
Detalhe da capa e contracapa


 Histórias sem texto são palavras trocadas por traços e cores! Assim, com o auxilio imagético das crianças efetuamos uma vivência com esta obra que ultrapassa o sentido inteligível e ecoa no senso estético! Construímos narrativas orais belas e complexas em grupo, a imagem explicou a palavra e a palavra reescreveu a imagem.

Nos em momento de criação das narrativas...
"Ouça-me rugir: GRRRRR!!!"
Olhem os rostinhos deles! rsrs
E é tão bom ver o belo ou descobrir o que é bonito sem que antes se suspeitasse disso, diria Fanny Abramovich em seu livro “Literatura infantil: gostosuras e bobices”. Esses bons livros de artes visuais são, sobretudo, experiências do olhar, de uma visão múltipla, pois se vê com os olhos do autor e do olhador/leitor, “ambos enxergando o mundo e as personagens de modo diferente, conforme percebem esse mundo” (ABRAMOVICH, 2009).
E é tão bom saborear e detectar tanta coisa que nos cerca usando esse instrumentos nosso tão primeiro, tão revelador de tudo: a visão. Talvez seja um jeito de não formar míopes mentais...
Opa, sinopse do livro? Nós criamos as nossas histórias, no entanto o site da editora trás a dela, a saber:
 “Esta é uma versão da conhecida história do ratinho que retribui a generosidade do leão libertando-o de uma armadilha fatal. Neste livro sem texto, ela nos é contada por meio das belíssimas imagens de Jerry Pinkey. São ilustrações de página inteira, que impressionam por sua altivez. Cada vez que folheamos o livro, nossos olhos captam novas cores e novos detalhes que vêm enriquecer a história”.

Outro momento poético com todas as turmas foi de uma obra do Caetano Veloso: “Canto de um povo de um lugar” (música do álbum “Jóia” de 1975). Primeiramente distribui a letra/poema para leitura prévia e em silêncio:
Canto de Um Povo de Um Lugar

Todo dia o sol levanta
E a gente canta
Ao sol de todo dia
Fim da tarde a terra cora
E a gente chora
Porque finda a tarde
Quando a noite a lua mansa
E a gente dança
Venerando a noite
Madrugada, céu de estrelas
E a gente dorme
sonhando com elas.

Autor: Caetano Veloso
Momento Literário – prof. Bruno


Depois efetuamos a declamação da mesma em voz alta alternando a vez: hora menino, hora menina, outra vez em dupla, depois em pequeno grupo, etc. Sempre respeitando o tempo e a singularidade de cada indivíduo. Na sequência, propus que formássemos um círculo, coloquei a música do Caetano para audição e... Cantamos juntos!

Momento de leitura individual.

O grupo em círculo, ouvindo e cantando a música.


 Cantamos e na cadência do som mexíamos nosso corpo de forma leve e em grupo: apoiamos os braços uns nos outros, tocamos as mão, movimentamos o círculo espontaneamente. Por fim sentamos mantendo o círculo, fechamos os olhos até a música acabar. Quando abrimos as pupilas, conferi um sorriso no rosto das crianças: o momento foi epifânico! Acho que atingimos a arte e essa coisa de “alcançar as veias do impossível”...
Detalhe da gente ao final da poesia/canção.

 Colhi algumas palavras das crianças em relação à ocasião: “Essa poesia e música é bonita”, “é linda como nossa voz”, “é delicada”, “é legal porque tem os nossos dias”, etc.
 Precisa de mais explicação? Ouça e sinta a melodia: 



 Abraços, professor Bruno.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Uma biblioteca corporal que anda e narra



“De repente senti muita fome. Não de comida, mas de todas as palavras escondidas naquelas estantes. Mas eu sabia que, por mais que eu lesse durante toda a minha vida, nunca conseguiria ler um milésimo de todas as frases que já foram escritas. Sim, pois há tantas frases no mundo quanto há estrelas no céu. E elas se multiplicam e se expandem continuamente, como o espaço infinito.
Mas ao mesmo tempo eu sabia que, a cada vez que eu abrisse um livro, eu veria um pedacinho do céu. Sempre que lesse uma frase, saberia um pouco mais do que antes. E tudo o que leio faz o mundo ficar maior, ficando maior eu também”.
A Biblioteca Mágica de Bibbi Bokken, pág. 148. 

Quem escolhe bem os seus livros estará sempre na melhor das companhias. Neles nos encontramos com os caracteres mais ricos de espírito, mais sábios e mais nobres, que constituem o orgulho e a glória da humanidade. Desta forma - enquanto mediador de leitura - a responsabilidade de ofertar material literário de qualidade aos nossos educandos é pertinente e a pesquisa é constante, de modo a também valorizar a nossa cultura brasileira. 








Neste bimestre o repertório crítico-cultural está sendo ampliado com novas leituras de obras que nos permitem outras experiências estéticas por meio da fruição literária e arte. São elas: “O mistério do coelho pensante” e “A vida íntima de Laura”, ambas de Clarice Lispector, “Cântico dos cânticos” de Ângela Lago, “Pandolfo Bereba” de Eva Furnari, poemas de Ricardo Silvestrin com seus livros “A moda genética” e “Transpoemas” e experimentando saborosamente o incrível universo criado pelo mestre Monteiro Lobato.

Dançando!!! Uhuuulll

Olha o passinho! :D

Recém chegados na sala... Queridos!

Leitura!!!

Escolha dos livros para levar para casa...

Participante especial de histórias...
 
Situações novas, novos desafios que entendem que a leitura é a necessidade básica: o objetivo principal e indispensável à aprendizagem na formação do leitor em todas as disciplinas e níveis de escolaridade. Assim, tivemos muitas novidades surpreendentes, promovemos uniões inusitadas. Sabores entre a arte literária e a arte culinária se mesclaram também: com o livro “As cocadas” de Cora Coralina otimizamos a história com fornadas quentinhas de cocadas que a personagem nos ensinou. Ficou uma delícia e a imersão neste universo mágico mais rico. Já o livro “Chapeuzinhos Coloridos” nos proporcionou um passei com a chapeuzinho cor de abóbora em seu bosque repleto de frutas, pois  a combinação de cores, texturas e cheiros eclodiram numa explosão de sentidos: nos deliciamos com salada de frutas ao lado de personagens tão queridos! 













 Tivemos momentos de cânticos, rimas, trava-línguas, danças e em época de páscoa nada melhor do que história de coelho também. Não é mesmo? A “Menina bonita do laço de fita” veio nos visitar. Assim, pudemos navegar nesta história da Ana Maria Machado como um delicado barquinho de papel: um convite ao leitor a usar a imaginação e explorar este universo e trouxe uma mensagem de consciência de combate ao preconceito. Ouvir, partilhar a palavra poética, explorar os sentidos e as artes em suas diversas manifestações tem sido constante em nosso cotidiano com as crianças que se pretende bonito, ético e saudável. Lendo, fazemos turismo sem sair do lugar. Uma lição de amor!


Atenciosamente, Professor Bruno.